domingo, 17 de maio de 2015

Escolha

Ela era jovem ainda. Seus cabelos negros e lisos, mesmo mal cuidados, tinham um brilho natural que apesar de não ser muito bonita, chamava atenção.
Pensou muito. Sentiu culpa. Teve vontade de desistir, mas sabia que não teria outra chance.
Naquela noite tomou sua decisão.
No dia seguinte, olhou para as quatro crianças no meio da sala, depois do simples café da manhã e até pensou em levar a menina, mas sabia que isso seria ainda mais cruel.
Colocou uma troca de roupas numa sacola, arrumou as camas, organizou a casa como pode e sempre olhando no relógio, porque não poderia deixar os filhos sozinhos por muito tempo, pois eram ainda muito pequenos, mas não poderia esperar o marido chegar para avisar que ia partir.
Pensou em deixar uma carta, mas achou que de qualquer forma, ele não entenderia. Nunca entendeu.
Quando faltava dez minutos para o marido chegar para o almoço, chamou o maiorzinho de sete anos e lhe disse para cuidar de seus irmãos até que o pai chegasse, que ela teria que dar uma saída. 
Colocou-os todos sentados no pequeno sofá puído e pediu que se comportassem. Pensou em lhes dar um último beijo, mas desistiu, para não tornar sua escolha ainda mais difícil.
Colocou a sacola no ombro, parou ainda na soleira da porta, mas não olhou para trás e nem para os filhos. Precisava ser forte.
Quando fechou a porta atrás de si, sabia que não teria mais volta e apressou o passo. Pensou ter ouvido uma das crianças chorando, mas logo se convenceu de que era impressão e andou ainda mais rápido, indo na direção contrária a que seu marido viria para não arriscar-se a encontrá-lo.
Já tinha andado por algum tempo, quando parou e ligou para ele, dizendo que o aguardava. Passados alguns minutos, ele estacionou o carro do outro lado da rua, foi ao seu encontro conduzindo-a até o carro para a sua nova vida.
Durante o trajeto, não fez perguntas. E ela, mesmo sem derramar uma única lágrima, tinha o coração destroçado por deixar os filhos, mas por outro lado, estava aliviada e se sentia, ainda que em conflito, confiante que teria uma vida melhor.
Não soube-se mais nem das crianças, nem da moça que as deixou naquela manhã, mas certamente, a vida se encarregou de cuidar para que todos vivessem aquilo que estava escrito para cada um.

Boa tarde!

2 comentários:

Rosa Gandine Hipólito disse...

Parabéns! Helena, pela sua sensibilidade. Beijos!

Helena Bertulucci disse...

Obrigada, Rosa Grandine Hipólito! Você é que é gentil para com o meu texto, afinal, ele foi feito a partir de uma linda história de vida! Beijo grande!