sábado, 17 de setembro de 2016

Sonsos

Eu queria ser normal... ter o sangue frio suficiente para fazer cara de paisagem, mesmo quando a pessoa pensa que eu sou idiota.
Para ler, eu enxergo muito mal, mas para ver gente sonsa, eu tenho a visão de uma ave de rapina.
Certo dia, meu filho me perguntou ainda quando eu morava na outra casa, se eu não teria uma garrafa térmica disponível, pois um amigo dele que tinha um estabelecimento simplesinho ali perto, não tinha como tomar café.
Poxa, eu adoro café e me coloquei no lugar do rapaz que segundo o meu filho, fazia muito por ele e ofereci a minha melhor garrafa térmica, branquinha, perolada (que estava comigo há mais de trinta anos em uso), e fui logo recomendando que era empréstimo, pois quando eu me mudasse, eu até providenciaria outra para o moço.
Mudei-me há alguns dias para a casa do meu filho. Segundo ele, esse amigo e a esposa vinham muito aqui e tanto, que até a chave do portão da cozinha eles tinham em mãos. Fico imaginando o entra e sai que não era... sob o pretexto de arrumar a casa para o meu filho, que só eu sei a trabalheira que estou tendo para desencardir o chão branco e colocar tudo em ordem, mas eles faziam a manutenção da casa, cujos banheiros tinham crostas de sujeira até nos azulejos, sem contar o estado de imundice dos vasos sanitários.
Assim que cheguei, verdade seja dita, o marido veio e me entregou a chave do portão e junto, a minha linda garrafa térmica, com o bico quebrado e tinha sujeira até dentro do envólucro.
Ao perguntar o que tinha acontecido, o rapaz me olhou com cara de coitadinho e me disse que já tinha chegado às mãos dele naquele estado. Eu respirei fundo, sorri (com a melhor cara de idiota que eu pude fazer) e disse que certamente ele tinha razão e agradeci.
Quem me conhece bem, pode imaginar o esforço que eu fiz para adotar essa postura, mas não queria que o meu filho se aborrecesse comigo desde a minha chegada.
Três dias depois, não suportando mais olhar para a minha garrafa térmica companheira de trinta anos, eu presenteei o rapaz com ela, naquele estado, mas ele ficou muito agradecido. Menos mal que eu tenha conseguido agir sem deixar ninguém insatisfeito, exceto a mim mesma.
Então, o rapaz disse que viria capinar o quintal. Ele veio num domingo pela manhã e fez um quarto do serviço (que meu filho diz que troca com ele, a manutenção da casa, pela prestação de advocacia que faz para o seu pequeno estabelecimento. Disse o moço que voltaria em meia hora, mas isso já faz duas semanas e a terra e o mato estão jogados na entrada da casa por todo canto. E eu continuo aqui, firme e forte, fazendo cara de paisagem.
O casal é tão "gente boa", que vem buscar as nossas roupas e leva para lavar na casa deles que fica distante da nossa três casas. A roupa fica lá por mais de uma semana e volta passada, mas faltando meias, cuecas (posto que essas peças sempre se perdem quando lavamos as roupas fora de casa), bem como com camisas escuras cheias de penugem clara, visivelmente lavadas com outras peças de cor clara e minhas blusinhas brancas, com manchas escuras que parecem alumínio, mas pasme, minha bermuda jeans favorita, veio corroída no cavalo (gancho). Mas não foi um furinho! Uma corrosão que simplesmente transformou a bermuda numa saia, porque o cavalo foi totalmente comido por algum rato ou bicho (que deve ser enorme, pelo tamanho do estrago)!
Detalhe, o tal amigo do meu filho, gentilmente trouxe a roupa passada e subiu para a parte íntima da casa, acostumado a essa intimidade permitida pelo meu filho e colocou toda a roupa sobre a minha cama e não mencionou absolutamente nada sobre a bermuda que estava passadinha no meio das outras peças.
Quando fui guardar a roupa e me deparei com o estado da bermuda, eu mostrei ao meu filho que disse que ia falar com o casal e eu pedi que não dissesse nada. 
Eu prefiro lavar nossa roupa, mas não quero ver a mesma cara de "coitadinho" do amigo dele, me dizendo que a bermuda tinha ido para lavar naquele estado, porque se ele fizer isto, tenho certeza que não vou conseguir me controlar e vou dizer na cara dele que ele e a mulher são dois sonsos, porque meu filho trabalha pra eles e eles "fingem" que trabalham para o meu filho e que são tão dissimulados, que escondem os prejuízos que causam aos outros, para não assumir seus erros.
Eu queria muito ter sangue frio e não dar importância a esse tipo de gente, mas minha indignação cresce a cada vez que vejo o meu filho tão generoso fazer tanto por esse casal que o está usando sob a capa da vida dura que parece que levam, mas que eu vejo que são realmente aproveitadores e que se fazem sim, o tempo todo de sonsos!

Bom dia! 


6 comentários:

krikamorim disse...

Sei o quanto é difícil pra você Helena!!

Helena Bertulucci disse...

Muito difícil mesmo, kricamorim! Mas obrigada pelo carinho, Cris! Você tem sido muito valiosa pra mim! Beijinhos...

krikamorim disse...

Helena, você também tem é está sendo muito importante pra mim. Aprendo com você a todo instante, e preciso aprender muito mais. Eu que agradeço por você fazer parte da minha vida!!!!

Lisandra disse...

Não, eu não teria dado a térmica e ainda teria cobrado uma nova!!!��

Helena Bertulucci disse...

Lisandra, vontade de fazer isto não me faltou, mas o meu filho ainda teria protegido o sonso, então, para não correr riscos, eu dei a térmica, mas cortei o acesso dele na casa, o que já foi de ótimo tamanho.

Lisandra disse...

O que não fazemos pelos filhos!!!😅