sábado, 22 de outubro de 2016

Acorrentado

A conversa fluía normalmente, até que ele me olhou com os olhos injetados. Senti a raiva contida e o ressentimento de anos revelados através dos olhos e quando segurou o meu braço, não foi com gentileza.
Penso no quanto ele trabalhou mal a sua dor e o seu ódio que trouxe em si através dos anos, em vez de ter deixado no passado.
Ele é bom, mas não lida bem com seus erros e isto dificulta sua comunicação com o mundo. Se não aprender a se perdoar, vai ser difícil aprender a perdoar o resto do mundo.
Vi no seu gesto agressivo (ainda que inconsciente), a falta de equilíbrio e recuei, porque não preciso afirmar o que já perpetua tanta dor. 
Apenas um gesto bastou para eu perceber que toda a sua raiva estava ali, intacta por tanto tempo, que pode-se dizer que está calcificada. 
A ele, não importa o que eu diga, o que eu faça, porque sempre vai prevalecer o passado que não pode ser modificado e ele não se desvencilha como deveria.
Para o resto das pessoas, as mágoas do passado são superadas, mas vejo com tristeza que as que ele carrega são perpetuadas por lembranças na maioria das vezes aumentadas e distorcidas da realidade, porque são vistas por ele do jeito que ele as via naquele tempo.
Culpa? Ninguém é culpado por erros que então eram tidos como acertos (mesmo não sendo), mas que tinham o escopo de fazer o que se esperava que fosse feito, mas quando a pessoa carrega tudo isto por anos a fio, o fardo vai ficando cada vez mais pesado e difícil de transportar.
Se ao menos ele tentasse deixar lá o que aconteceu, hoje teria menos peso para sustentar no coração obscurecido pelo ranço de tudo que ele viveu e que não tem como ser diluído se ele mesmo não se esforçar por diminuir o valor que dá a sua dor.
Se eu soubesse naquele tempo o que sei agora, certamente teria tido mais cuidado e teria sido mais cautelosa e comedida, quer com as palavras, quer com os gestos, pois dói mais em mim, constatar que ainda hoje ele sente tanta dor que não consegue seguir em frente e se livrar dela como tantos outros o fazem.
A dor é sempre personalíssima, mas a dele é agigantada porque ele a valoriza mais do que a leveza dos bons momentos que viveu e faz questão de não computá-los, para perpetuar essa sensação de ter sido vítima. 
Mas vítima do que? Vítima da própria arrogância, impertinência e de um caráter altamente indomável e que confrontava a todos para se impor quando ainda não tinha meios para fazê-lo e isto gerava consequências que ele nunca entendeu que deviam permear as ações dele para que não gerassem reações com as quais ele não queria e não podia trabalhar devido a tenra idade. 
A consequência é que arrasta correntes até hoje e não enxerga que se as deixar para trás, será mais livre e mais feliz do que jamais foi.
Temos o dever de nos livrar das amarras para seguirmos em frente buscando vencer outros desafios em vez de cultivarmos os obstáculos que nos dificultam a caminhada.

Boa tarde!  

sábado, 15 de outubro de 2016

Professor

Houve um tempo em que era glamouroso ser professora. Toda moça de boa família cursava a Escola Normal. 
Casar-se com um professor ou professora então, era para uma seleta casta de sortudos.
Eu tenho vários professores na família, meu tio mais velho Alberto, minha irmã Célia, minha afilhada Ana Rita, sua irmã Mônica, a mãe dela, minha comadre Vera e até a minha madrinha Da Graça, os primos Marli, Alba, Luís Henrique. Tenho amigos professores, como a Elaine, o Alexandre, o Dernivan, a Aulinda, enfim...
Me lembro de alguns professores sensacionais, como a professora Tânia, o professor Vicente, Abadia, Aluízio, Wilson Abadio, Luís Carlos, Cecília, Jesuíno, Antonieta, Kiko, irmã Walmíria, irmã Miriam, Albertina, Berenice, Alcides, Romão, e não vou citar todos, porque passaria uns dois dias escrevendo nomes, porque foram muitos ao longo de muitos anos estudando e fazendo cursos, mas sintam-se igualmente prestigiados, todos.
Claro que a gente sempre tinha os preferidos e também tinha aqueles de quem a gente não gostava mesmo, mas ainda assim, tiveram um papel muito importante no meu desenvolvimento estudantil, intelectual, cultural e acadêmico.
Mas de todos os professores ora recordados, o que mais me ensinou durante toda a minha vida, foi o meu pai, que também era professor e tinha muito orgulho de sua profissão.
Nessa época, o professor era alguém tratado com deferência e respeito. Ai de quem respondesse a um professor! 
O mestre era uma autoridade vista e reconhecida como tal.
Infelizmente, no Brasil, esse profissional de esmerada dedicação, nunca foi muito valorizado. Lembro desde sempre - e principalmente pelo meu pai, que o salário nunca foi algo substancioso, mas ainda assim, o respeito era consistente, por toda a sociedade.
Hoje, vemos nas redes sociais crianças agredindo seus professores, que precisam ir às ruas, clamar por salários dignos e condições de trabalho decentes, quase como mendigos, implorando por respeito e reconhecimento. Os governos veem sistematicamente desvalorizando essa categoria de profissionais e desmerecendo a dedicação que ela nos dispensa.
O professor que comemora seu dia hoje, não sei se pode realmente ter algo a comemorar, em tempos difíceis como os que tem atravessado.
Então, fica aqui minha homenagem a esses doadores de conhecimento, orientadores de carreiras, inspiradores e motivadores, que tanto fazem por todos os que vão até eles beber da fonte de suas sabedorias, mas também um apelo para que a sociedade volte a respeitar o mestre, porque sem ele, a criança não seria alfabetizada, o jovem não desenvolveria o raciocínio lógico, o profissional, de qualquer área, não existiria. O professor é o profissional que gera todas as demais profissões e capacita os técnicos e especialistas em quaisquer funções.
Parabéns pelo seu dia, mas principalmente, obrigada por existir na nossa vida!

Boa tarde!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Paciência como?

Ai a pessoa diz que quer aprender comigo. 
Ótimo! Fico feliz por ser útil e ensinar algumas coisas, porque também não sou "a" dona de casa.
Só que esqueceu de dizer que era pra eu ensinar a pensar!!!
Como faço para ensinar uma pessoa a pensar com lógica, ter bom senso e observar antes de fazer as coisas? Não sei onde se aprende isso e muito menos como se ensina.
Sei que olho para uma prateleira antes de organizá-la e procuro imaginar de que maneira eu posso dispor ali os objetos de forma a tornar minha vida mais prática na hora que precisar de algum utensílio.
Pra quê escorredor, se você vai colocar a louça para escorrer fora dele, escorada na parede da pia e quando você vai guardar esse objeto, os pratos vão bater na parede e vão se quebrar, porque você os apoiou exatamente naquilo que deixou fora do escorredor?
Então, minha amiga me mostra orgulhosa que deixou tudo pronto à noite, para fazer o café pela manhã e ainda observou que era só colocar o pó no coador que em pouquíssimo tempo o café estaria pronto. Como perdeu a hora, me deixou mensagem avisando que não fez o café por esse motivo. Beleza! 
Vim fazer o café e imediatamente (já que estava tudo pronto para coá-lo, eu liguei o fogo e fui fazer outras coisas! Realmente foi muito boa a ideia da minha amiga, deixar tudo arranjado para isto. Ganhei tempo.
Quando volto para a cozinha, a casa estava quase pegando fogo e a minha chaleira derretida. Levei o maior susto!
A criatura não me avisou que deixou a água que era para ser fervida dentro da garrafa térmica e não dentro da chaleira!!!!!!!
Como posso ter paciência com isso?
Se a minha amiga fosse uma adolescente, eu até entenderia a falta de senso prático, mas com mais de quarenta anos, fica difícil eu entender como é que uma mãe e que segundo ela, foi criada fazendo o serviço de casa, não sabe o básico. Vejo que não aprendeu nada durante a vida toda, ou então, haja displicência, porque na minha concepção e posso estar errada, os acidentes domésticos acontecem porque as pessoas não pensam para fazer as coisas.
Minha amiga é uma pessoa muito disposta e determinada e me ajuda muito, mas vejo que não é traquejo que lhe falta. Falta aprender a pensar e eu não tenho paciência para ensinar a pensar - e nem sei como fazer isto.
Por mais que eu a questione, mostrando que ela tem que se perguntar o por quê de fazer de um jeito ou de outro e mostre que ela precisa desenvolver senso prático, se quiser facilitar a própria vida, ela não consegue desenvolver a logística doméstica e faz uma bobagem atrás da outra, por falta de observar o em torno e analisar o que é mais sensato fazer.
Burrice é algo que me irrita sobremaneira, porque não é falta de inteligência e sim falta de atenção na maioria das vezes.
Enfim, tem gente que sabe fazer tricô, pintar telas lindas, mas não sabe fritar um ovo, enquanto outras pessoas conseguem fazer banquetes, mas não sabem fazer a bainha de uma calça. Vá lá! 
Mas evitar acidentes, é dever de todos.

Bom dia!