quinta-feira, 30 de março de 2017

Sessenta

Sessenta segundos, sessenta minutos, sessenta horas, sessenta dias, sessenta semanas, sessenta meses e já são sessenta anos!
Não que envelhecer seja algo fácil de se encarar. Não é. 
Tem algumas vantagens... a sabedoria, a forma como a gente passa a encarar a vida e os netos.
Ah, os netos! Eles são uma espécie de compensação. Você envelhece para recebê-los, como se fosse uma troca: a artrose pelos sorrisos deles; os cabelos brancos pelas perguntas mais incríveis que já te fizeram na vida; as rugas pelos abraços...
É muito bom ter netos! São a nossa renovação, nossa inspiração, nossa alegria no inverno da vida.
Eu queria falar sobre envelhecer, sobre as frustrações e o esmaecer do espírito, o vigor que aos poucos nos abandona, mas como posso pensar na velhice, quando a vida se refaz e se rejuvenesce a cada ano, através dos netos?
Há sete anos, ganhei meu neto Antonio.
A juventude ressurge intensa através dele! A inspiração dessa força e desse brilho que ele traz para minha existência afasta a rabugice pela falta de paciência com gente burra e teimosa. Netos são o sol, o brilho da vida na terceira idade.
Ao contrário dos filhos, que são nosso desafio, nosso descobrir, os netos são motivadores para que a gente se reinvente.
Quando se envelhece, descobre-se que os filhos são o seu legado e deles dependerá o seu conforto, ou o desafio de enfrentar o abandono. Eu creio ter feito um bom trabalho, porque meu filho é meu provedor, meu companheiro de toda a minha vida desde que nasceu e sou grata a ele por tudo o que me ensinou.
Envelhecer é como um compartimento construído de experiências boas e más, que consiste na nossa edificação. É o guardar lembranças desde a mais tenra idade, até o dia de ontem. 
Quando se envelhece, se dá de cara com tudo o que fizemos durante a vida e nos deparamos com a consciência de que não podemos nos lamentar, porque o tempo já passou e tudo mudou, mesmo sem a nossa participação. É isto! Descobrimos que não participamos de nada e a vida seguiu seu curso, distinta a nossa vontade. 
Pensamos que fizemos escolhas, mas na verdade, fomos levados ao sabor dos ventos. Acreditamos que tínhamos o poder de mudar as coisas, mas só o que fizemos foi nos acomodar diante de cada situação que se nos apresentou.
A diferença, quando se é jovem, é que nos empenhamos em lutar para modificar o que surge pela frente e, quando se envelhece, não nos damos o trabalho, porque já sabemos que o que tem que ser, será.
Na juventude, sonhamos com grandes realizações, mas quando envelhecemos, sonhamos com uma boa noite de sono, sem dor e sem termos que nos levantar várias vezes para ir ao banheiro. 
Na velhice, nossos parâmetros e exigências são totalmente modificados.
Quando se chega nesta fase da vida, a gente descobre que só fez costurar uma enorme colcha de retalhos e se passa a perguntar se ela foi bem costurada e se te servirá de alento e agasalho, ou se vai descosturar na primeira vez que você a estender sobre si.
Todas as incertezas que você tinha quando era jovem, se transformaram em certezas, no entanto, você passa a não ter convicção de mais nada, porque também aprendeu que tudo na vida é relativo.
Com o passar dos anos, amealhou segredos, amigos, inimigos, mas se teve a família como esteio, vai constatar que todos também envelheceram e cada um enfrenta seus próprios demônios interiores.
A beleza e o vigor da juventude se afastam definitivamente para dar lugar a um corpo que não é o ideal, mas você aprende a respeitar seus sinais.
Envelhecer é uma arte, sem dúvida! A arte da aceitação, da busca pela acomodação, porque já não tem mais tempo para mudar e, ainda que tivesse, você sempre se perguntará pra que?
Enfim, cheguei na terceira idade e olhando pra trás vejo que não sou autora de nenhum grande feito, mas sou uma mulher cansada das batalhas que vivi. Algumas eu ganhei, outras eu perdi, mas todas foram encaradas de frente e paguei cada preço que me foi cobrado por elas. Não me acovardei.
Agora, inicio nova fase na vida e espero que eu tenha discernimento e lucidez até o final dos meus dias. O resto administra-se!

Bom dia!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Mulher Insegura

Mulher insegura, não importa a idade, ama de forma patética.
Sempre se comporta como se fosse adolescente e faz beicinho e lacrimeja por tudo, para chamar a atenção de seu amado.
Invariavelmente, é chata dentro da relação, faz marcação cerrada (como se isto fosse impedir que seu parceiro, companheiro, marido, namorado, ou "cacho" se interessasse por outra mulher).
Seja o que for que o homem diga, ela distorce a frase para tomar para si, um "indício" de que ele não a ama mais! 
Está sempre implorando por atenção e se desculpa o tempo todo, como se todas as mazelas do mundo fossem por sua culpa, mas no momento seguinte, está repetindo a mesma frase, ou a mesma cobrança em situação análoga.
Se uma outra mulher se aproxima, ela logo joga na cara do parceiro, que ele está interessado na outra, que já não a ama mais como antes e aí começa o dramalhão mexicano!
"Vou sair da sua vida! Vou deixar o caminho livre, se é isto o que você quer! Tudo o que eu quero é que você seja feliz, mesmo que não seja ao meu lado, porque eu sei que não mereço o seu amor e seu pensamento agora é para ela! Você deseja estar com ela e não comigo"! 
E não importa quanto o homem tenha paciência e lhe jure que não está interessado na outra (a quem na maioria das vezes ele realmente nem pensa em qualquer aproximação), ela faz questão de lembrar a existência da outra a cada segundo.
Teme que seu homem se apaixone por outra e com isto, em vez de viver o momento e aproveitar as coisas boas da relação com leveza, perde tempo precioso, cobrando e se achando menos do que de fato representa para o companheiro, porque acredita que desse modo, fazendo esse joguinho, vai prender o seu amor no pé da cama.
Mulher que ama mais ao outro do que a si mesma, via de regra, é fadada a ser maltratada por seu homem, porque não se dá o respeito. 
Transforma a relação num jogo, onde cada frase é escolhida para cobrar, alfinetar e não raro, se apressa a dizer que estava brincando, que não foi o que quis dizer, que o outro entendeu do modo equivocado a frase dita por ela, e que confia nele e é na outra que não confia, como se a relação já fosse a três e não só entre os dois, pois com a "suposta outra" que ela traz para a relação, esse tipo de mulher sempre passa atestado de incompetência, insegurança e falta de amor próprio.
Se o homem dá o aviso, que ela está minando a relação, logo ela volta à novela mexicana e jura que não vai mais cobrar, que ele está certo, que ela é mesmo uma tola, que faz tudo errado, mas que vai melhorar e que será outra pessoa dali para a frente, até duas horas mais tarde, ela dar outro "show", por conta de um cometário que ele possa ter feito sobre a comadre da tia da avó da vizinha. 
Pronto! Ela começa a fantasiar que essa pessoa tem uma amiga que tem uma prima que tem uma filha e que seu namorado está interessado nessa criatura. E lá vai ela, alfinetar, cobrar e choramingar novamente, dizendo que sabe (porque ela sempre sabe), que ele já não a ama mais!
Normalmente, esse tipo de mulher, esperneia e sapateia, alardeando que não tolera traição, mas quando de fato o companheiro deixa um rastro com um encontro casual e fortuito, ela não faz nada! Não o deixa como o ameaçado! Chora, se descabela, implora que ele não a deixe, que não sabe mais viver sem ele.
Patética, ridícula!
Não importa o quanto o homem demonstre que esteja a seu lado por inteiro, ela sempre vai dizer que ele tem vergonha dela, que não quer que os amigos dele a conheçam, porque ela (como sempre), sabe que não é digna dele. E mais novela mexicana!
Sem dúvida, esse tipo de mulher (ou homem), cansa qualquer cristão. Não mede esforços para se depreciar aos olhos do parceiro e nunca perde a oportunidade de demonstrar o quanto se magoa por nada. Um porre!
Mulher que age assim, está sempre pedindo permissão para existir e vive dizendo que não quer atrapalhar ou envergonhar o seu homem e que se ele não quiser que ela o acompanhe, ela sempre vai compreender, mas morre, se isto acontece e dá-lhe novela mexicana!
Não é incomum, mulher que tem esse comportamento (e homem também), ser dramática e demonstrar imaturidade em tudo o que fala ou faz.
Essa mulher, sempre tem ciúme, e mesmo que o seu marido, ou namorado, esteja a seu lado, ela inventa do nada, uma outra mulher na vida dele, para cobrar e alfinetar, sem se dar conta que isto desgasta a relação e com esse comportamento, ai sim, ela cava a própria cova, até o dia em que o homem (ou a mulher) se cansa e de fato começa a se interessar por outra pessoa, porque ninguém aguenta gente insegura o tempo todo.
E isto também serve para homem inseguro!
Mulher ou homem que se dá valor e se respeita, ama com segurança e transforma a relação em algo bom! Atrai o outro para perto de si, porque é prazeroso estar com aquela pessoa e não importa quem possa aparecer na vida, bom mesmo é estar com o seu amor, porque é com quem a pessoa tem cumplicidade, e em quem confia.
Mulher (ou homem) insegura, cansa. Pense nisso e procure ser divertida ao lado do seu amor. Te garanto que isto o deixará muito mais interessado em você do que em qualquer outro ser na face da terra.

Boa tarde!  



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Fraterna

A primeira e melhor amiga de infância.
Depois, vêm as diferenças, os ciúmes, as competições, as brigas, as pazes, mas ela sempre estará lá, porque mesmo que não esteja, os laços sanguíneos estarão.
São os mesmos pais, os mesmos irmãos e até os mesmos amigos. 
Tudo é comum entre duas irmãs de sangue e de vida.
Vivemos juntas as mesmas histórias de família, nos descabelamos pelos mesmos brinquedos, mas claro, nunca (porque é sagrado), disputamos os mesmos namorados, até porque, para isto, felizmente no nosso caso, os gostos são diferentes.
Depois vieram os casamentos, os filhos e lá estavam eles, crescendo como irmãos, sendo primos, mas eram nossa contribuição para a continuidade dos laços.
E pelos netos e sobrinhos, temos ambas o mesmo apreço e amor.
Brigas mais sérias houveram, mas ainda assim, por mais que tenham durado, o afeto natural entre irmãs, felizmente sempre falou mais alto.
Hoje é o dia do aniversário da minha irmã.
Como eu, ela tem personalidade, é mulher de atitude, guerreira, mas somos totalmente diferentes, mesmo sendo iguais.
Amamos a nossa família e fazemos de tudo para protegê-la, cada uma a seu modo.
Queremos sempre o melhor para todos, nem que para isto, tenhamos que pisar em ovos, uma com a outra, porque ambas somos sensíveis.
Fato é que eu a amo!
Desejo a você, Célia (ou Dinha para os irmãos), toda a felicidade que você puder sentir na vida; que tenha saúde para viver plenamente toda a vida que lhe estiver reservada; que você seja realizada em todos os seus empreendimentos e principalmente que seja muito amada como merece, por todos os que a cercam e lhe são caros.
Parabéns, minha irmã!
Feliz aniversário!

Boa tarde!


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Anastácia

Olhando para ela, vejo o quanto é resignada. Verdadeiramente nobre.
Está paralisada. O processo não começou agora. Vem de algum tempo, mas se agravou há umas duas semanas.
Ela não sente dor e isto me conforta, mas seus rins estão deixando de funcionar e até para mastigar, ela tem dificuldade, o que a fez perder muito peso rapidamente. Hoje ela come cerca de duas colheres de sopa de comida por dia, às vezes até menos, mas ela já foi a "minha gorda"...
Sempre se comunicou comigo. Anastácia sabia me chamar latindo diferente, mais rouco, para obter a minha atenção para o que quisesse e mesmo diante de todas as suas dificuldades atuais, ela ainda se comunica, com olhares, ronronados e até um arremedo do que foi aquele latido tão peculiar.
Está definhando a cada dia. Não ouso me perguntar por que uma criatura tão maravilhosa, gentil, doce e suave tem que passar por isto, até porque não teria a resposta. Não posso compreender, ou alcançar o entendimento disso e choro.
Chego a pensar que é para eu aprender a me portar quando chegar a minha vez... como se eu pudesse ter a dignidade dela...
Assisto aos vídeos que fiz dela e vejo as fotos, desde que era bebê e relembro seus anos de glória, sempre marcados por sua meiguice e delicadeza.
Agora, chegando ao fim, com quase catorze anos de vida tranquila, assisto com o coração apertado e entre lágrimas a hora derradeira se aproximar. Eu sofro. Ela não sei, mas acredito que saiba da minha dor, porque eles sempre sabem...
Não me atrevo a pedir que ela lute para viver. Seria muito egoísmo da minha parte, porque tenho certeza que ela o faria, não importando o quanto isso representasse de mais sofrimento. Sei disto, porque eu ofereço água e ela reluta, com dificuldade para engolir, então eu digo pra ela obedecer a mamãe e na hora, num esforço descomunal, ela me olha e dá umas lambidinhas na água e eu choro.
Não sei se quero abreviar o sofrimento dela, ou o meu, mas tenho cogitado por um fim a essa condição e não sei lidar com essa hipótese. Tenho medo. 
Temo o remorso, temo a dor da partida dela e principalmente, tenho pavor de pensar no sofrimento dela para deixar a vida, porque morrer não é tão simples quanto parece e me assusta pensar que ela possa querer lutar mais um pouco e eu talvez esteja lhe tirando essa possibilidade.
Não quero que nada a agrida, nem a minha dor que é mínima, perto da gigante guerreira que já pesou oito quilos e agora está com menos de três quilos. Um saquinho de pele e ossos, com os mesmos olhos expressivos que sempre brilharam ao me ver. E continuo chorando...
Quero que ela vá em paz, mas não consigo pensar nela partindo sem que também sinta medo, ou tente desistir para me poupar. Penso em sussurrar em seus ouvidos, para que ela se encha de coragem e faça a sua viagem, mas quando a tomo tão pequenina em meus braços e ela olha pra mim, com tristeza, eu desisto e apenas digo que a amo. Agora entre soluços... e sei que ela pressente todos os meus sentimentos, porque seus olhos se iluminam num lampejo, como quem ainda se sente no dever de fazer por mim o que eu jamais poderei retribuir, porque este amor por mais que a gente tente, nunca pode ser retribuído, porque o ser humano não sabe amar como um cão.
Penso nas crianças e em todas as pessoas terminais e sinto constrangimento, por saber como é a dor dos entes queridos em seus sofrimentos e daqueles que ficam, mas não posso evitar, porque também ela é um ente querido para mim.
E eu olho pra ela, agora deitadinha ao meu lado e me olhando de volta, sinto meu coração diminuir ainda mais dentro do peito, mas também sinto esperança de que ela amanhã acorde bem e recuperada desse pesadelo, seja aqui, ou no lugar mais lindo que se possa imaginar, para que seus amiguinhos a recebam em festa, como ela merece.

Eu te amo minha gorda!

Boa tarde!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Silenciosamente

Ela tinha sonhos, fazia projetos, perseguia seus objetivos e tinha muita alegria de viver.
Mesmo quando caía, sacudia a poeira e seguia em frente. Recomeçar nunca tinha sido um problema e o fazia com muita energia.
Tinha um namorado, se divertiam juntos e gostavam das mesmas coisas. A vida era boa.
Então, sua mãe morreu. Ela ficou triste, sentiu muito a morte dela, mas seguiu em frente, como sempre fazia, pois ainda precisava cuidar do velho pai.
Continuou seus projetos, continuou o namoro, e, apesar da tristeza e da falta que a mãe fazia, ainda tinha muita alegria de viver e a vida não chegou a ser difícil, mas era menos colorida.
Então seu pai morreu. O chão ruiu sob seus pés. Ele era seu porto seguro, seu confidente, seu amigo, mas como sempre tinha sido provedor, não lhe tinha ensinado a viver sem ele.
Sentiu dor. Entristeceu. Perdeu a alegria de viver. Rompeu com o namorado, que afinal, não foi o parceiro que ela precisava que fosse e desse modo, não tinha porque continuar.
Tudo ficou cinza, mas ela continuou trabalhando, só que não tinha mais o mesmo entusiasmo.
Recomeçar agora era um fardo. 
Os projetos foram deixados de lado e pouco a pouco, ela foi desistindo. Não fazia mais diferença, se estava engordando (e muito), ou se estava emagrecendo (o que não acontecia). 
Se alguém a chamava para sair, arranjava uma desculpa para não ter que se arrumar e sair de casa.
Fazia o básico, mas até isto lhe custava muito. Aos poucos foi deixando também de lado o trabalho.
Ficou prostrada, porque na verdade, apesar de ser adulta, não sabia que a perda do pai lhe causaria um dano tão grande e aos poucos, afastou-se dos amigos e deixou de sentir alegria.
A depressão se instalou silenciosamente e ninguém percebia. Ela sabia, mas não tinha ânimo para lutar contra, porque não tinha mais motivação alguma.
Engordou muito, deixou de se cuidar também e esqueceu que precisava viver.
Aos poucos, a erva daninha cresceu no quintal e dentro dela.
Em pouco tempo, deixou de procurar a si mesma e foi se esquecendo das coisas...
Foi ficando cada vez mais acabrunhada, cada vez mais triste e foi se tornando opaca, sem nenhum brilho.
Enquanto isto, as pessoas também foram se esquecendo dela e as sombras foram tomando os cantos da casa.
A única amiga que ainda mantinha contato por telefone teve uma discussão com ela, porque sempre que conversavam ela dizia que estava bem e ouvia com interesse sobre a vida da outra, mas nessa discussão a amiga que não podia avaliar sua dor (porque ela nunca falava de como se sentia), ficou magoada com o rumo da conversa e rompeu com ela.
Agora estava definitivamente só.
E foi para o quarto, chorou e dormiu. 
Quando o telefone tocou, não se levantou para atender, porque certamente era alguém para cobrar as contas atrasadas e não precisava mais pagar nenhuma conta.
Voltou a dormir profundamente.
E mais um dia se fez, mas ela não se lembrava se precisava se levantar e não se levantou.
E continuou dormindo, até que um dia, algum vizinho percebeu o silêncio sepulcral e chamou a polícia.
Quando forçaram a porta, ela estava morta há muito.
Silenciosamente deixou o mundo, porque sua única companheira a depressão, não a deixou um minuto sequer depois que se instalou.
Esta doença é um perigo, porque ninguém percebe quando ela se instala.
Cuide das pessoas a quem você ama, porque nem sempre se consegue perceber os sinais.

Boa noite!

sábado, 22 de outubro de 2016

Acorrentado

A conversa fluía normalmente, até que ele me olhou com os olhos injetados. Senti a raiva contida e o ressentimento de anos revelados através dos olhos e quando segurou o meu braço, não foi com gentileza.
Penso no quanto ele trabalhou mal a sua dor e o seu ódio que trouxe em si através dos anos, em vez de ter deixado no passado.
Ele é bom, mas não lida bem com seus erros e isto dificulta sua comunicação com o mundo. Se não aprender a se perdoar, vai ser difícil aprender a perdoar os demais.
Vi no seu gesto agressivo (ainda que inconsciente), a falta de equilíbrio e recuei, porque não preciso afirmar o que já perpetua tanta dor. 
Apenas um gesto bastou para eu perceber que toda a sua raiva estava ali, intacta por tanto tempo, que pode-se dizer que está calcificada. 
A ele, não importa o que eu diga, o que eu faça, porque sempre vai prevalecer o passado que não pode ser modificado e ele não se desvencilha como deveria.
Para o resto das pessoas, as mágoas do passado são superadas, mas vejo com tristeza que as que ele carrega são perpetuadas por lembranças na maioria das vezes aumentadas e distorcidas da realidade, porque são vistas por ele do jeito que ele as via naquele tempo.
Culpa? Ninguém é culpado por erros que então eram tidos como acertos (mesmo não sendo), mas que tinham o escopo de fazer o que se esperava que fosse feito, mas quando a pessoa carrega tudo isto por anos a fio, o fardo vai ficando cada vez mais pesado e difícil de transportar.
Se ao menos ele tentasse deixar lá o que aconteceu, hoje teria menos peso para sustentar no coração obscurecido pelo ranço de tudo que ele viveu e que não tem como ser diluído se ele mesmo não se esforçar por diminuir o valor que dá a sua dor.
Se eu soubesse naquele tempo o que sei agora, certamente teria tido mais cuidado e teria sido mais cautelosa e comedida, quer com as palavras, quer com os gestos, pois dói mais em mim, constatar que ainda hoje ele sente tanta dor que não consegue seguir em frente e se livrar dela como tantos outros o fazem.
A dor é sempre personalíssima, mas a dele é agigantada porque ele a valoriza mais do que a leveza dos bons momentos que viveu e faz questão de não computá-los, para perpetuar essa sensação de ter sido vítima. 
Mas vítima do que? Vítima da própria arrogância, impertinência e de um caráter altamente indomável e que confrontava a todos para se impor quando ainda não tinha meios para fazê-lo e isto gerava consequências que ele nunca entendeu que deviam permear as ações dele para que não gerassem reações com as quais ele não queria e não podia trabalhar devido a tenra idade. 
A consequência é que arrasta correntes até hoje e não enxerga que se as deixar para trás, será mais livre e mais feliz do que jamais foi.
Temos o dever de nos livrar das amarras para seguirmos em frente buscando vencer outros desafios em vez de cultivarmos os obstáculos que nos dificultam a caminhada.

Boa tarde!  

sábado, 15 de outubro de 2016

Professor

Houve um tempo em que era glamouroso ser professora. Toda moça de boa família cursava a Escola Normal. 
Casar-se com um professor ou professora então, era para uma seleta casta de sortudos.
Eu tenho vários professores na família, meu tio mais velho Alberto, minha irmã Célia, minha afilhada Ana Rita, sua irmã Mônica, a mãe dela, minha comadre Vera e até a minha madrinha Da Graça, os primos Marli, Alba, Luís Henrique. Tenho amigos professores, como a Elaine, o Alexandre, o Dernivan, a Aulinda, enfim...
Me lembro de alguns professores sensacionais, como a professora Tânia, o professor Vicente, Abadia, Aluízio, Wilson Abadio, Luís Carlos, Cecília, Jesuíno, Antonieta, Kiko, irmã Walmíria, irmã Miriam, Albertina, Berenice, Alcides, Romão, e não vou citar todos, porque passaria uns dois dias escrevendo nomes, porque foram muitos ao longo de muitos anos estudando e fazendo cursos, mas sintam-se igualmente prestigiados, todos.
Claro que a gente sempre tinha os preferidos e também tinha aqueles de quem a gente não gostava mesmo, mas ainda assim, tiveram um papel muito importante no meu desenvolvimento estudantil, intelectual, cultural e acadêmico.
Mas de todos os professores ora recordados, o que mais me ensinou durante toda a minha vida, foi o meu pai, que também era professor e tinha muito orgulho de sua profissão.
Nessa época, o professor era alguém tratado com deferência e respeito. Ai de quem respondesse a um professor! 
O mestre era uma autoridade vista e reconhecida como tal.
Infelizmente, no Brasil, esse profissional de esmerada dedicação, nunca foi muito valorizado. Lembro desde sempre - e principalmente pelo meu pai, que o salário nunca foi algo substancioso, mas ainda assim, o respeito era consistente, por toda a sociedade.
Hoje, vemos nas redes sociais crianças agredindo seus professores, que precisam ir às ruas, clamar por salários dignos e condições de trabalho decentes, quase como mendigos, implorando por respeito e reconhecimento. Os governos veem sistematicamente desvalorizando essa categoria de profissionais e desmerecendo a dedicação que ela nos dispensa.
O professor que comemora seu dia hoje, não sei se pode realmente ter algo a comemorar, em tempos difíceis como os que tem atravessado.
Então, fica aqui minha homenagem a esses doadores de conhecimento, orientadores de carreiras, inspiradores e motivadores, que tanto fazem por todos os que vão até eles beber da fonte de suas sabedorias, mas também um apelo para que a sociedade volte a respeitar o mestre, porque sem ele, a criança não seria alfabetizada, o jovem não desenvolveria o raciocínio lógico, o profissional, de qualquer área, não existiria. O professor é o profissional que gera todas as demais profissões e capacita os técnicos e especialistas em quaisquer funções.
Parabéns pelo seu dia, mas principalmente, obrigada por existir na nossa vida!

Boa tarde!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Paciência como?

Ai a pessoa diz que quer aprender comigo. 
Ótimo! Fico feliz por ser útil e ensinar algumas coisas, porque também não sou "a" dona de casa.
Só que esqueceu de dizer que era pra eu ensinar a pensar!!!
Como faço para ensinar uma pessoa a pensar com lógica, ter bom senso e observar antes de fazer as coisas? Não sei onde se aprende isso e muito menos como se ensina.
Sei que olho para uma prateleira antes de organizá-la e procuro imaginar de que maneira eu posso dispor ali os objetos de forma a tornar minha vida mais prática na hora que precisar de algum utensílio.
Pra quê escorredor, se você vai colocar a louça para escorrer fora dele, escorada na parede da pia e quando você vai guardar esse objeto, os pratos vão bater na parede e vão se quebrar, porque você os apoiou exatamente naquilo que deixou fora do escorredor?
Então, minha amiga me mostra orgulhosa que deixou tudo pronto à noite, para fazer o café pela manhã e ainda observou que era só colocar o pó no coador que em pouquíssimo tempo o café estaria pronto. Como perdeu a hora, me deixou mensagem avisando que não fez o café por esse motivo. Beleza! 
Vim fazer o café e imediatamente (já que estava tudo pronto para coá-lo, eu liguei o fogo e fui fazer outras coisas! Realmente foi muito boa a ideia da minha amiga, deixar tudo arranjado para isto. Ganhei tempo.
Quando volto para a cozinha, a casa estava quase pegando fogo e a minha chaleira derretida. Levei o maior susto!
A criatura não me avisou que deixou a água que era para ser fervida dentro da garrafa térmica e não dentro da chaleira!!!!!!!
Como posso ter paciência com isso?
Se a minha amiga fosse uma adolescente, eu até entenderia a falta de senso prático, mas com mais de quarenta anos, fica difícil eu entender como é que uma mãe e que segundo ela, foi criada fazendo o serviço de casa, não sabe o básico. Vejo que não aprendeu nada durante a vida toda, ou então, haja displicência, porque na minha concepção e posso estar errada, os acidentes domésticos acontecem porque as pessoas não pensam para fazer as coisas.
Minha amiga é uma pessoa muito disposta e determinada e me ajuda muito, mas vejo que não é traquejo que lhe falta. Falta aprender a pensar e eu não tenho paciência para ensinar a pensar - e nem sei como fazer isto.
Por mais que eu a questione, mostrando que ela tem que se perguntar o por quê de fazer de um jeito ou de outro e mostre que ela precisa desenvolver senso prático, se quiser facilitar a própria vida, ela não consegue desenvolver a logística doméstica e faz uma bobagem atrás da outra, por falta de observar o em torno e analisar o que é mais sensato fazer.
Burrice é algo que me irrita sobremaneira, porque não é falta de inteligência e sim falta de atenção na maioria das vezes.
Enfim, tem gente que sabe fazer tricô, pintar telas lindas, mas não sabe fritar um ovo, enquanto outras pessoas conseguem fazer banquetes, mas não sabem fazer a bainha de uma calça. Vá lá! 
Mas evitar acidentes, é dever de todos.

Bom dia!

sábado, 17 de setembro de 2016

Sonsos

Eu queria ser normal... ter o sangue frio suficiente para fazer cara de paisagem, mesmo quando a pessoa pensa que eu sou idiota.
Para ler, eu enxergo muito mal, mas para ver gente sonsa, eu tenho a visão de uma ave de rapina.
Certo dia, meu filho me perguntou ainda quando eu morava na outra casa, se eu não teria uma garrafa térmica disponível, pois um amigo dele que tinha um estabelecimento simplesinho ali perto, não tinha como tomar café.
Poxa, eu adoro café e me coloquei no lugar do rapaz que segundo o meu filho, fazia muito por ele e ofereci a minha melhor garrafa térmica, branquinha, perolada (que estava comigo há mais de trinta anos em uso), e fui logo recomendando que era empréstimo, pois quando eu me mudasse, eu até providenciaria outra para o moço.
Mudei-me há alguns dias para a casa do meu filho. Segundo ele, esse amigo e a esposa vinham muito aqui e tanto, que até a chave do portão da cozinha eles tinham em mãos. Fico imaginando o entra e sai que não era... sob o pretexto de arrumar a casa para o meu filho, que só eu sei a trabalheira que estou tendo para desencardir o chão branco e colocar tudo em ordem, mas eles faziam a manutenção da casa, cujos banheiros tinham crostas de sujeira até nos azulejos, sem contar o estado de imundice dos vasos sanitários.
Assim que cheguei, verdade seja dita, o marido veio e me entregou a chave do portão e junto, a minha linda garrafa térmica, com o bico quebrado e tinha sujeira até dentro do envólucro.
Ao perguntar o que tinha acontecido, o rapaz me olhou com cara de coitadinho e me disse que já tinha chegado às mãos dele naquele estado. Eu respirei fundo, sorri (com a melhor cara de idiota que eu pude fazer) e disse que certamente ele tinha razão e agradeci.
Quem me conhece bem, pode imaginar o esforço que eu fiz para adotar essa postura, mas não queria que o meu filho se aborrecesse comigo desde a minha chegada.
Três dias depois, não suportando mais olhar para a minha garrafa térmica companheira de trinta anos, eu presenteei o rapaz com ela, naquele estado, mas ele ficou muito agradecido. Menos mal que eu tenha conseguido agir sem deixar ninguém insatisfeito, exceto a mim mesma.
Então, o rapaz disse que viria capinar o quintal. Ele veio num domingo pela manhã e fez um quarto do serviço (que meu filho diz que troca com ele, a manutenção da casa, pela prestação de advocacia que faz para o seu pequeno estabelecimento. Disse o moço que voltaria em meia hora, mas isso já faz duas semanas e a terra e o mato estão jogados na entrada da casa por todo canto. E eu continuo aqui, firme e forte, fazendo cara de paisagem.
O casal é tão "gente boa", que vem buscar as nossas roupas e leva para lavar na casa deles que fica distante da nossa três casas. A roupa fica lá por mais de uma semana e volta passada, mas faltando meias, cuecas (posto que essas peças sempre se perdem quando lavamos as roupas fora de casa), bem como com camisas escuras cheias de penugem clara, visivelmente lavadas com outras peças de cor clara e minhas blusinhas brancas, com manchas escuras que parecem alumínio, mas pasme, minha bermuda jeans favorita, veio corroída no cavalo (gancho). Mas não foi um furinho! Uma corrosão que simplesmente transformou a bermuda numa saia, porque o cavalo foi totalmente comido por algum rato ou bicho (que deve ser enorme, pelo tamanho do estrago)!
Detalhe, o tal amigo do meu filho, gentilmente trouxe a roupa passada e subiu para a parte íntima da casa, acostumado a essa intimidade permitida pelo meu filho e colocou toda a roupa sobre a minha cama e não mencionou absolutamente nada sobre a bermuda que estava passadinha no meio das outras peças.
Quando fui guardar a roupa e me deparei com o estado da bermuda, eu mostrei ao meu filho que disse que ia falar com o casal e eu pedi que não dissesse nada. 
Eu prefiro lavar nossa roupa, mas não quero ver a mesma cara de "coitadinho" do amigo dele, me dizendo que a bermuda tinha ido para lavar naquele estado, porque se ele fizer isto, tenho certeza que não vou conseguir me controlar e vou dizer na cara dele que ele e a mulher são dois sonsos, porque meu filho trabalha pra eles e eles "fingem" que trabalham para o meu filho e que são tão dissimulados, que escondem os prejuízos que causam aos outros, para não assumir seus erros.
Eu queria muito ter sangue frio e não dar importância a esse tipo de gente, mas minha indignação cresce a cada vez que vejo o meu filho tão generoso fazer tanto por esse casal que o está usando sob a capa da vida dura que parece que levam, mas que eu vejo que são realmente aproveitadores e que se fazem sim, o tempo todo de sonsos!

Bom dia! 


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Equívoco

Então na rede social, ele me pediu para ser adicionado aos meus contatos. Pelo nome, sabia que provavelmente fosse alguém que eu conhecia, então aceitei.
De fato, era um velho conhecido.
Depois dos cumprimentos de praxe, ele me diz que se lembrou de mim, porque no passado eu tinha feito algo que ele nunca mais esqueceu.
Fiquei entre preocupada e curiosa, porque a amizade das famílias teria sido motivo para eu então, ter tomado cuidados para não ferir ninguém. E ele me sai com a seguinte informação:
"Você me roubou um beijo".
Eu fiquei em estado de choque, porque não me lembrava do beijo e tinha quase certeza que não tinha acontecido, mas há mais de trinta anos, como eu poderia lembrar?
Justifiquei que não me recordava e que devia ter sido brincadeira e esperava que não o tivesse magoado, ao que ele me garantiu que eu o magoei.
Quando perguntei por que o teria magoado, ele atalhou que era porque tinha sido só um beijo.
Eu ri, afinal, deve ter sido bom, já que ele não tinha se esquecido e que eu lamentava, porque de minha parte, realmente não me recordava desse beijo.
Tentei mudar de assunto, mas ele insistia em falar do beijo que realmente eu não me recordava.
Lembrei a ele que na época, ele saía com uma amiga comum e mantinham um relacionamento do tipo namorico, e que se eu tivesse dado o beijo que ele estava dizendo, provavelmente não estaríamos conversando agora, pois teria sido morta por ela. Nós rimos.
Tive que interromper a conversa por meus afazeres e disse que em outro momento a gente conversaria.
No dia seguinte ele me chamou e disse que estava ficando louco, porque realmente não tinha sido eu quem o beijou, mas a nossa amiga! 
Ri aliviada, porque tinha sido muito desconfortável, ele falando de um beijo que eu sinceramente não tinha nem uma vaga lembrança.
Ora, estava esclarecido porque eu não me lembrava do beijo, afinal, ele jamais aconteceu.
Foi um equívoco.

Bom dia!